O que é Triste num Terremoto

O que é terrível sobre terremotos, é que as vezes o sobrevivente sofre mais do que aqueles que morreram. Abaixo um registro inesquecível para quem o ler. É retirado de um liro chamado “As boas mulheres da China” da jornalista chinesa Xinran. (link) ela passou muito tempo entrevistando mulheres marcadas por alegrias e tragédias, e esta abaixo é sobre um grande terremoto que aconteceu na China em 1976 e matou 300 mil pessoas.
O relato abaixo é da mãe de uma delas, que a princípio sobreviveu, mas em que condições…

“O meu marido tinha morrido fazia um ano, e a minha filha e eu morávamos num apartamento no quinto andar, designado pela unidade de trabalho. Tínhamos só um aposento, e dividíamos a cozinha e o banheiro com outras pessoas. O cômodo não era grande, mas não achávamos apertado. Como odeio extremos de calor e de frio, a minha metade do quarto ficava junto da parede interna e a da minha filha,junto da parede externa. Naquela manhã fui acordada por um estrondo, batidas e um tremor violento. A minha filha me chamou e tentou sair da cama para vir até mim. Tentei levantar, mas não conseguia ficar ereta. Estava tudo balançando e a parede se inclinava na minha direção. De repente a parede ao lado da minha filha desapareceu e ficamos expostas, na beirada do quinto andar. Estava calor, de modo que só estávamos de roupa de baixo. A minha filha gritou e passou os braços em torno do peito, mas antes de poder reagir melhor foi atirada da borda por outra parede que caiu.

“Gritei o nome dela, agarrada a uns ganchos de pendurar roupa na parede. Foi só depois que parou de balançar, e que consegui me firmar no piso inclinado, que percebi que era um terremoto. Procurei desesperada
um jeito de descer e desci, cambaleando e gritando por minha filha.

“Eu não tinha percebido que não estava vestida. Todos os outros sobreviventes também estavam com muito pouca roupa. Alguns estavam até nus, mas ninguém prestou atenção nessas coisas. Estávamos todos correndo de um lado para o outro na penumbra, chorando e chamando os parentes aos gritos.

“Naquela balbúrdia, gritei até ficar rouca, perguntando a todo mundo sobre a minha filha. Algumas das essoas que abordei me perguntavam se eu tinha visto os parentes delas. Estava todo mundo de olhos arregalados e aos berros, ninguém entendia nada. À medida que as pessoas foram gradualmente se dando conta do horror total da situação, foi-se fazendo um silêncio angustiado. Teria dado para ouvir um alfinete cair no chão. Eu tinha medo de memexer, medo de fazer a terra começar a sacudir de novo. Ficamos ali, examinando a cena à nossa frente: prédios desmoronados, canos de água estourados, buracos enormes no chão, cadáveres por  todo lado, estendidos no chão, pendurados em vigas de telhado e pendendo para fora de casas. Estava se erguendo uma nuvem de poeira e fumaça. Não havia sol nem luar, ninguém sabia que horas eram. Começamos a nos perguntar se ainda estávamos na terra dos vivos.”

“Água? Ah, sim… Não sei quanto tempo levou, mas comecei a sentir sede, porque tinha gritado tanto que estava com a garganta em carne viva. Alguém disse “água” com voz fraca, fazendo todo mundo se lembrar de que era preciso cuidar da questão imediata da sobrevivência. Um homem de meia-idade avançou do grupo e disse: “Se quisermos viver, temos que nos ajudar uns aos outros e nos organizar” Todos concordaram aos sussurros.

“Estava começando a clarear, e tudo à nossa frente se tornou mais distinto e mais terrível. Aí, de repente, alguém gritou: “Olhem, ali, uma pessoa viva!” E naquela claridade fraca vimos uma garota suspensa no ar, presa entre as paredes em ruínas de duas construções. Embora o rosto estivesse coberto pelo cabelo e não desse para ver a parte inferior do corpo, que estava presa nos escombros, eu sabia - pela cor e pelo estilo do sutiã e pelo torso se debatendo - que era a minha filha, e me pus a gritar “Xiao Ping!”, tremendo de alegria e aflição. Ela continuava a se contorcer desesperadamente, e percebi que não conseguia me ouvir nem me ver. Abri caminho por entre a multidão, gesticulando na direção dela e dizendo aos Soluços que aquela era a minha filha. Os escombros não me deixavam passar. As pessoas começaram a ajudar, tentaram escalar a Parede onde a minha filha estava presa, mas a altura era de no míni-mo dois andares e ninguém tinha ferramentas. Eu não parava de gritar o nome de Xiao Ping, mas ela não me ouvia. “Algumas mulheres, e depois uns homens, começaram a gritar junto comigo, para me ajudar. E logo estava todo mundo chamando “Xiao Ping! Xiao Ping!”

“Ela finalmente nos ouviu. Levantou a cabeça e usou a mão livre, a esquerda, para afastar o cabelo do rosto. Eu sabia que ela estava me procurando. Parecia confusa, não conseguia me enxergar entre aquela gente nua ou seminua. Um homem ao meu lado começou a empurrar para um lado as pessoas que estavam ao meu redor. De início ninguém entendeu o que ele estava fazendo, mas logo ficou claro que estava tentando abrir
um grande espaço à minha volta para que Xiao Ping pudesse me ver. Deu certo. Xiao Ping gritou “Mamãe!” e me acenou com a mão livre.

“Gritei de volta, mas minha voz estava rouca e fraca. Então, levantei os braços e acenei para ela. Não sei quanto tempo passamos chamando e acenando. Finalmente alguém me fez sentar. Ainda havia um grande espaço vazio ao meu redor, de modo que Xiao Ping podia me ver. Ela também estava cansada, a cabeça pendia e ela arquejava. Pensando naquele momento, fico me perguntando por que ela não gritou para que eu a salvasse. Nunca disse nada como “Mamãe, me salve nada disso.”

“Quando foi que a senhora começou a contar os catorze dias e duas horas que mencionou?”

“Um homem gritou para Xiao Ping: “São cinco e meia da manhã. Logo vai chegar alguém para tirar você daí! ” Ele quis reconfortá-la, ajudá-la a agüentar, mas passaram-se segundos, minutos, horas, e ninguém acudiu.”

“Só lembro que primeiro chegou o exército. Os soldados chegaram suados de tanto correr, mas nenhum deles
nem parou para tomar fôlego antes de iniciar o salvamento. Levando cordas e pinos, dois deles começaram a escalar a parede em que Xiao Ping estava presa. Parecia que podia desabar a qualquer momento e esmagar
todo mundo. Eu mal conseguia respirar enquanto os via se aproximando cada vez mais da minha filha.” Ela fez silêncio por alguns minutos. “Quando viu que estava chegando socorro, Xiao Ping se pôs a chorar. O primeiro soldado que a alcançou tirou o blusão do uniforme para cobri-la. Ela só estava com um braço livre, de modo que ele teve que passar o blusão em torno dela como se fosse uma túnica tibetana. O outro soldado segurou uma garrafa d’água junto à boca de Xiao Ping para que ela bebesse. Os dois começaram a puxar os tijolos e as pedras em torno dela, e logo soltaram o braço direito, que estava todo machucado e  ensangüentado. Por algum motivo, eles de repente pararam de escavar. Gritei para eles, perguntando qual era o problema, mas não dava para me ouvirem. Depois de algum tempo, desceram e vieram falar comigo. Gesticulando com mãos sujas de sangue, disseram que a metade inferior do corpo de Xiao Ping estava presa entre os blocos de concreto armado da parede, os quais eles não conseguiam remover só com as mãos. Perguntei por que estavam com as mãos tão ensangüentadas. Eles puseram as mãos atrás das costas e responderam que não tinham permissão de usar ferramentas para soltar pessoas de escombros, para não correr o risco de machucá-las”.

“Quando tudo acabou, descobri que alguns soldados ficaram com as unhas e as pontas dos dedos carcomidas, de tanto escavar, mas amarraram uns panos nas mãos e continuaram. Alguns gritavam  loucamente enquanto cavavam, porque ouviam gemidos e pedidos de socorro vindos do meio das ruínas. O que é que eles podiam fazer, só com as mãos? O equipamento pesado de socorro não conseguia chegar à cidade porque as estradas tinham sido destruidas. Quanta gente morreu, à espera de ajuda?”

“Ela antes gemia ao arranhar-se num galho, e empalidecia ao ver sangue. Mas naqueles últimos catorze dias foi tão forte que até me consolava, dizendo que estava entorpecida e por isso não sentia dor alguma. Quando finalmente conseguiram soltá-la, as pernas dela estavam esmagadas, tinham virado uma pasta. A pessoa que a preparou para o funeral disse que a pélvis estava fraturada. Espero que ela realmente tenha perdido a sensação na parte inferior do corpo nesses catorze dias em que ficou exposta à intempérie. Eu contei cada minuto. Durante todo esse período as pessoas tentaram todo tipo de método para salvá-la, trabalhando sem parar, mas nada funcionou.

“Finalmente os soldados me ajudaram a escalar a parede até junto de Xiao Ping e improvisaram um assento para que eu pudesse sentar e ficar abraçada com ela por longos períodos. Embora fosse verão, o corpinho fraco dela estava gelado. “Nos primeiros dias ela ainda conseguia conversar comigo e gesticulava ao me contar histórias. A partir do quarto dia foi ficando cada vez mais fraca, até que mal podia levantar a cabeça. Todo dia lhe levavam comida e remédios, e havia uma pessoa para cuidar dela, mas a metade inferior do corpo devia estar sangrando o tempo todo e deve ter gangrenado. Era cada vez maior o número de pessoas que se preocupavam com ela, mas não havia nada que ninguém pudesse fazer. Tangshan inteira estava em ruínas, simplesmente não havia equipamento nem equipes de emergência em número suficiente, e as estradas para a cidade estavam intransitáveis. A minha filhinha….”

“Nos últimos dias, acho que Xiao Ping deve ter entendido que não havia esperança, embora as pessoas encontrassem todo tipo de pretexto para tentar animá-la. Ela ficava largada nos meus braços, incapaz de se mexer. Na manhã do décimo quarto dia, ela fez força para endireitar o torso e me disse: “Mamãe, acho que os remédios que você tem me dado estão fazendo efeito. Estou me sentindo mais forte, olhe!” “As pessoas lá embaixo, que por catorze dias tinham-na observado com atenção, começaram todas a bater palmas e a dar vivas quando a viram endireitar o corpo. Também eu achei que tivesse ocorrido um milagre. E Xiao Ping, quando viu que todo mundo estava tão entusiasmado, pareceu ganhar forças. O rosto, que até então estava mortalmente pálido, ficou muito vermelho e ela se pôs a falar com as pessoas em voz alta e clara, agradecendo e respondendo às perguntas que lhe faziam. Alguém sugeriu que ela cantasse uma canção e os outros se puseram a incentivá-la: “Cante uma canção, Xiao Ping! Xiao Ping, cante uma canção!” Até que ela
fez que sim com um movimento fraco da cabeça e começou a cantar: “A estrela vermelha está brilhando com uma luz maravilhosa, a estrela vermelha está brilhando no meu coração.”

“Naquela época todo mundo conhecia essa música, e muita gente começou a cantar junto com Xiao Ping. O som do canto por entre a desolação foi como o desabrochar da esperança. Pela primeira vez em muitos dias as pessoas estavam sorrindo. Depois de algumas estrofes, a voz de Xiao Ping falhou, e ela tombou lentamente nos meus braços.”

“Xiao Ping não tornou a acordar. Achei que estivesse dormindo, mas quando percebi o meu engano era tarde demais. Ela não teve últimas palavras. Sua última experiência neste mundo foi a de pessoas cantando e sorrindo ao seu redor. Quando o médico me disse que ela estava morta, permaneci calma - aqueles catorze dias e duas horas haviam esgotado as minhas lágrimas. Só comecei a chorar quatro dias depois, quando finalmente removeram o corpo de Xiao Ping, que já estava cheirando mal. O corpo estava num estado… Sangue do meu sangue… Como eu sofri!

(pp. 85-94 - A maioria são citações literais, mas editei algumas partes para deixar mais conciso.) Eu recomendo que comprem e leiam o livro, assim vemos que nossos problemas não se comparam a isto, de forma geral. (link p/ compra do livro)

Esse é um retrato do que significa um terremoto.  Muitos médicos não conseguem ficar tempo suficiente nestes locais, pois a quantidade de amputações em crianças e em outros habitantes acaba por mostrar uma faceta trágica que poucos de nós conhecemos. O Chile e o Haiti são os últimos grandes exemplos deste tipo de tragédia, e mostram que sobreviver nem sempre significa viver.

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6 Responses to “O que é Triste num Terremoto”

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