Quando a Imoralidade Invade a Administração
O curso de Administração de Empresas (e o curso de “Business” no exterior) é cada vez mais procurado por mais e mais jovens que sonham com sucesso, gerências, diretorias e, enfim, poder.
De uma proto-ciência, derivada da economia, está surgindo um ramo farto para se ganhar dinheiro com obras literárias de baixo teor teórico e mÃnimo teor ético. Um exemplo disso é o livro “Gerenciando como a Máfia“. Esse livro se autoproclama ‘Um Guia para o Maquiavel Empresarial’. Teoricamente foi escrito por um integrante da máfia que resolveu abrir as regras administrativas dessa entidade e aplicá-las ao contexto empresarial.
Primeiro: Maquiavel jamais apoiaria uma porcaria dessas. Só alguém que leu Maquiavel através de citações do google possui um entendimento tão pobre como esse, do tipo “os fins justificam os meios”. A dimensão polÃtico-teórico-filosófica de Maquiavel é enorme, vasta, rica em teorias de absolutismo e governos republicanos. Mas não vamos esperar que um “mafioso” entenda disso. Ele provavelmente leu uma edição resumida e comentada de “O PrÃncipe” e esqueceu que Maquiavel tem mais umas 10 obras importantes.
Além de tudo, vejam a resenha da loja online cujo link está acima:
Diferentemente de outros guias de administração, ‘Gerenciando como a Máfia’ evita a verborragia teórica e expõe a prática e orientação filosófica da liderança que fundou e dirigiu o “Império silencioso” durante séculos de expansão e sucesso. E em vez de encarar esses planos de ação e conselhos preciosos como produtos da chamada “mente criminosa”, encara-os como o que realmente são: o reflexo de uma profunda compreensão da natureza humana. ‘Gerenciando como a máfia’ é um guia de administração extremamente prático. Depois de lê-lo, ninguém voltará a olhar para seu ambiente de trabalho com os mesmos olhos.
Império Silencioso de expansão e sucesso? Parece mais alguém que assistiu os filmes do “Poderoso Chefão”, se empolgou e depois de refletir muito sobre isso, escreveu essa porcaria. Além de tudo, chamar uma organização criminosa que age fora da lei e encara o mundo como inimigo de um império é palhaçada. Defender a Máfia é coisa de desvairado.
Enfim, nossos administradores lêem Maquiavel atráves de terceiros, não entendem que a boa administração parte do entendimento e compreensão, e já vêem o próximo como concorrente e, consequentemente, mau. Dessa forma, qualquer noção de empresa como agente para melhorar algo fica vencida por dogmas plantados por um infeliz que nunca saiu de casa sem uma arma na mão para seu “ganha-pão”. Pelo que sei, mafioso não precisa se preocupar em trabalhar feito louco de sol a sol.
Além de tudo isso, Al-Capone e outras figuras são fontes de citações. Qual o tipo de liderança irá advir desse processo? Um ignorante que trata subordinados como terrorista e ganha apenas ódio em troco jamais vai construir um império silencioso, vai construir uma resistência silenciosa que irá arrastar a empresa para o fracasso através de erros forçados e uma falta de perspectivas que arrasará qualquer chance de estruturação produtiva descente. Muito me surpreende a edição em português esgotada desta porcaria, mas hoje em dia, qualquer coisa que ensine pessoas a ganhar dinheiro e gerenciar suas vidas, vende como sorvete na praia.
Os acadêmicos de administração têm o dever ético de apresentar a visão contrária desta, e a ensinar que uma pessoa que age dentro da ética acaba tendo sucesso como consequencia. Demora, mas é sustentável, duradouro e meritocrático. Quem encara o outro como seu inimigo é um covarde sem conhecimento para uma competição limpa. Isso é a máfia.
O Capitalismo só é uma praga, quando vermes aplicam-no desta forma. O Capital não é um ente que age sozinho, mas é manipulado por mãos, na maioria das vezes, irresponsáveis e imorais.




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